A sala de aula pode se tornar num campo de batalha, num divã, ou pior, num lugar para catarse.
Num debate sobre a tortura o estudante mais velho da turma justifica seu uso pela eficácia. Constato a divisão de opiniões polarizada quando emergem outras pérolas como “são profissionais altamente treinados pra isso”. Eu já havia contado o que sei sobre o “uso moderado da força para fins confissão” nos EUA. Já tinha feito a piada sobre o Capitão Nascimento ser o Jack Bauer brasileiro, que resolvia tudo na porrada. Só cresciam os comentários sobre a possibilidade e até a necessidade do uso da tortura. Estava vivendo meu pior pesadelo. Um jovem professor idealista do combate à tortura desmoralizado pelo discurso da ordem militar.
Foi quando pensei sobre o porquê escolhi ser professor. O que eu pensava sobre profissão e vocação, e todo mundo que eu admirava por viver isto intensamente. Então comecei a divagar com o que lembrava das lições da professora Jeanine Philippi, sobre o conceito de idiota para Hannah Arendt. A cada frase que eu dizia repetia enfaticamente no final:
“- Idiota!”.
Seria aquele que pensa que o mundo gira entorno do seu umbigo.
“- Fiz, porque recebi ordens. Idiota!”.
No final da aula, o estudante vencedor do debate, que há pouco me olhava com os olhos esbugalhados, aperta minha mão com um muito obrigado para nunca mais voltar.
Rio de Janeiro, 27 abr 2015
Hannah Arendt bolada
Ai que dor… Infelizmente não podemos sempre inspirar e transportar uma reflexão para certos tipos de pessoas. Um exemplo bem triste é o vídeo que alguns refugiados fizeram agradecendo o Brasil por lhes haver recebido e nos comentários, um monte de gente fazendo piadas racistas e xingamentos.. É por isso que “mudar o mundo” ou simplesmente melhorá-lo é difícil. Existe uma banalização do mal extrema na América Latina. Como lidar com isso? Acho que na teoria é difícil mostrar essa dor, é necessário que a pessoa banal presencie algo como uma tortura para poder TALVEZ pensar duas vezes sobre sua opinião insensível.
Te digo que é dificil, mas Carlos Castaneda dizia que apenas o caminho difícil vale a pena. A luta não vale a pena pelas máquinas, mas a quem você consegue transformar, e eu fui uma dessas alunas. Gratidão e força!!!
Muito obrigado Larissa, fico emocionado, forte abraço!