O idiota sou eu

A sala de aula pode se tornar num campo de batalha, num divã, ou pior, num lugar para catarse.

Num debate sobre a tortura o estudante mais velho da turma justifica seu uso pela eficácia. Constato a divisão de opiniões polarizada quando emergem outras pérolas como “são profissionais altamente treinados pra isso”. Eu já havia contado o que sei sobre o “uso moderado da força para fins confissão” nos EUA. Já tinha feito a piada sobre o Capitão Nascimento ser o Jack Bauer brasileiro, que resolvia tudo na porrada. Só cresciam os comentários sobre a possibilidade e até a necessidade do uso da tortura. Estava vivendo meu pior pesadelo. Um jovem professor idealista do combate à tortura desmoralizado pelo discurso da ordem militar.

Foi quando pensei sobre o porquê escolhi ser professor. O que eu pensava sobre profissão e vocação, e todo mundo que eu admirava por viver isto intensamente. Então comecei a divagar com o que lembrava das lições da professora Jeanine Philippi, sobre o conceito de idiota para Hannah Arendt. A cada frase que eu dizia repetia enfaticamente no final:

“- Idiota!”.

Seria aquele que pensa que o mundo gira entorno do seu umbigo.

“- Fiz, porque recebi ordens. Idiota!”.

No final da aula, o estudante vencedor do debate, que há pouco me olhava com os olhos esbugalhados, aperta minha mão com um muito obrigado para nunca mais voltar.

Rio de Janeiro, 27 abr 2015

Hannah Arendt bolada

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Dono da rua

 

As pessoas que moram na minha rua

dormem com o cobertor do dia

As costas nuas

no calor de dar agonia

 

As pessoas que moram na minha rua

agitam-se cedo a esperar acordar

Massas ainda cruas

de pães que farão você vomitar

 

Todas manhãs e noites são iguais

Desconforto, urina e maçã verde

Sonho do embalo de uma rede

Realidades de esquinas virais

Camisa pão mofado para crianças – da tenda do Huck

Rio de Janeiro, 27 abr 2015

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Colégio Mãe de Deus

 

O pátio da escola era cenário de vitórias e fracassos

 

O garoto que se balançava no travessão da goleira

agora busca respirar deitado no chão

Mas com tempo ainda de admirar as nuvens

de onde imaginara ter caído

 

O pedaço de tijolo que alcança o galho mais alto da nogueira-pecam

derrubando um punhado que chegará ao chão logo após

Mas que precisa esperar a decisão da parábola imperfeita que pode

espatifar-se ao chão ou nos miolos da quase freira noviça

 

O primeiro campeonato de corrida de petelecos em carrinhos

feitos das duas partes de um prendedor de roupa colados lado a lado

Um solado de parafina para deslizar na

pista desenhada na areia com o sapato

Todos muito bem pintados e adesivados de time de botão

 

Na sala da direção começou o inquérito coletivo

de todos com olho roxo

Culpados do acidente doméstico

da surra na hora da saída

e de Cristo na cruz

A mágica da noz.

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Para o que der e vier

Entrei num táxi em Porto Alegre uma semana depois do episódio envolvendo meu Grêmio e o goleiro Aranha.

O time que tem uma estrofe no hino – nunca cantada – sobre um imortal goleiro Lara, combatente da Revolução de 1930 que morreu após um grenal antológico. Hino escrito pelo compositor Lupiscínio Rodrigues, em 1953, que no verso “com o Grêmio onde o Grêmio estiver” homenageia a faixa feita por Alfredo Obino durante greve dos bondes.

Mas naquela semana todos precisávamos encontrar explicações para tanta ignorância e bestialidade.

Após cumprir o protocolo de comentar com o motorista que eu era porto-alegrense, e estava morando longe há tempos, entramos no tema futebol:

– Eu sou colorado – diz o taxista -, mas acho que não foi nada demais, estão abusando.

– Eu sou gremista – eu respondi -, e acho que foi mesmo racismo, nós temos este problema no Brasil e não é de hoje.

Após algum silêncio o taxista comenta que sofreu racismo de seu sogro por muito tempo. Mas que antes de morrer este havia pedido perdão ao dizer que toda sua família o havia abandonado, menos ele.

Finalmente nos apresentamos, disse meu nome ao senhor em meio a lágrimas e apertos de mãos de camaradas.

Aranha, o craque moral, soube seu nome elevar. Hoje com o mesmo ideal, nós saberemos te honrar.

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Sobre quando o fim é o começo

 

Em 2011 vim ao Rio de Janeiro para continuar minha pesquisa sobre advocacia com movimentos populares e algo curioso aconteceu.

Eu estava reunindo desde 2007 os cadernos de coleções de um instituto dedicado a advocacia e a educação popular, o AJUP-RJ. Minha trajetória de 5 anos por encontros, seminários, bibliotecas, acervos pessoais e profissionais tinha chegado ao fim quase completamente. Faltavam alguns volumes que percebi porque estavam no catálogo, e outros que imaginava que pudessem existir.

Ao entrar na sala da companheira Eliana Athayde já havia decidido divulgar tudo o que tinha no blogue da AJPopular. O primeiro sentimento foi de frustração ao saber que o material estava todo reunido num local que eu não teria acesso. Ao continuar a conversa fui pescando com os olhos os títulos dos livros nas prateleiras do escritório. Mas pra quê? Se os cadernos não tem lombadas?

Imaginei um sobre as lutas pela terra, de ontem e de hoje, com críticas arrasadoras do Estado e do Direito. Após algum tempo de devaneio sou interrompido por Eliana que a esta altura também me acompanhava na pescaria:

Mas pera aí, estes aqui com capa dura azul e preta. Nem mesmo eu sabia que estavam aqui.– disse ela me entregando os três volumes.

Estavam todos os cadernos reunidos lá, minha procura terminou exatamente onde deveria ter começado. Mas todo pesquisador sabe que estes dados não se encontra no Google.

buscador da tese

Rio de Janeiro, 27 abr 2015

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Sinhô devogado

Homenagem a Ruy Medeiros

 

De riba do meu direito eu não retiro o pé

Pra me fazer justiça eu minto

 

Faço um roçado pra longe

Faço um roçado pra perto

Queimo tudo pro lado do vento

que escapar do nariz do lazarento

 

Planto no meio do mato o andú e a bananeira

Cravo cada mourão antigo…

Do tempo das cercas da vitória de conquista

 

Aprende uma lição dotô devogado

De riba do meu eu não afasto um parmo

 

Mourão antigo. FONTE: Eduardo Lara SAMBA PHOTO

Rio de Janeiro, 21 de março de 2015

 

+ poemas

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Escrevendo a tese piando

Hoje quero responder a pergunta “O que que é direito insurgente?” na base do pio:

 

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